São onze e trinta e quatro da manhã. Ela estende o braço à mesa onde por baixo dos livros tem sempre o telemóvel e, pela quarta vez, vê as horas. Aproveita também para ver o saldo e pensa a quem mandar uma mensagem a seguir. As menságens são grátis.
Há sempre lá à frente alguém que não interessa, a falar de coisas tão importantes quanto a sua presença ali.
Ela é um ser estranho, que junto com os restantes seres daquela sala, governa aquele mundo. Sabe tudo, e sabe possuir esse poder de governar e sempre que pode faz uso dele, pelo que nada pode acontecer que ela ou outro qualquer não deixe acontecer. Tem o dom da palavra (sempre a palavra que interessa ter e, no entanto, nunca diz nada que realmente importe) e sabe a arte de mentir. É amiga de toda a gente, mas só quando não interessa ser.
Tudo o que não é falado, não existe. Para ela ou qualquer dos que a rodeiam, as coisas são assim imensamente e tão mais fáceis.
Toca a campaínha e o barulho intensifica-se, espalha-se e dissipa-se momentos a seguir, dando lugar a novas ondas de coisas ocas. Ao seu lado, a pessoa a quem momentos antes mandava mensagens deixou de existir. Existe sim, o rapaz giro que anda sempre naquele corredor. Trocaram olhares e por isso tem que gostar dela. Não há maneira de não gostar dela. Ali não existe uma pessoa que chore, ou solidão ou qualquer expressão na cara de ninguém porque ninguém nunca fala de coisas como essas.
Novo toque de campaínha impõe-se e lança-se mais alto que todo o barulho. Naquela sala onde está agora, não há empatia nem respeito porque qualquer um que ali esteja não o permite. Há de novo o telemóvel dela sobre a mesa, debaixo dos livros e a pessoa por detrás das mensagens. Há o ar condicionado a lutar por tornar o ar menos quente e pesado e a falhar vezes sem conta, a não importar, sempre a juntar-se ao barulho.
Ninguém ama e todos sabem falar de amor. Todos sabem falar de amizade e ninguém sabe o que é a amizade. Este mundo que ela gorverna, é um mundo de coisas perfeitas.
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